Ensaios e reflexões
Alho, cebola e frango: é tudo igual?
Ter experiência com alimentação não é o mesmo que compreender a Nutrição — entenda por que essa diferença importa quando orientamos outras pessoas.

Alho, cebola e frango são alimentos. Podem estar na mesma cozinha, participar da mesma preparação e até dividir o mesmo prato. Mas ninguém diria que são a mesma coisa. Pertencer a uma mesma categoria não significa ser equivalente em composição, características ou função. Curiosamente, quando o assunto é alimentação, essa distinção nem sempre parece tão evidente.
Como todos comemos, todos acumulamos experiências com a comida e, frequentemente, temos algo a dizer sobre ela. Mas será que essa familiaridade nos torna igualmente preparados para compreender a alimentação, explicar seus efeitos sobre a saúde ou orientar outras pessoas?
Comer é uma atividade cotidiana, presente ao longo de toda a vida. Entretanto, não nascemos sabendo o que comer, como comer ou de que maneira nossas escolhas alimentares podem repercutir na saúde.
Aprendemos a comer e, ao mesmo tempo, aprendemos a atribuir significados à comida.
Desde a infância, incorporamos hábitos, preferências, costumes e crenças das pessoas com quem convivemos, das relações que estabelecemos e dos ambientes em que vivemos.
Ao longo do tempo, recebemos informações, acumulamos experiências e construímos nossas próprias explicações sobre a alimentação. Desenvolvemos opiniões, valores e interesses, alguns fundamentados em conhecimentos consistentes, outros apoiados em experiências particulares, tradições familiares ou informações que nem sempre compreendemos em profundidade.
Tudo isso faz parte da experiência humana e tem seu valor.
O problema não está em termos opiniões sobre alimentação. O problema começa quando confundimos a experiência de comer com o conhecimento necessário para compreender a Nutrição.
Vivenciar uma prática não significa, necessariamente, compreender todos os processos envolvidos nela.
Quando o cotidiano parece explicar tudo
A alimentação tem uma característica particular: faz parte da vida de todos, embora não se manifeste da mesma maneira na vida de cada pessoa.
Comemos por necessidade biológica, mas também por prazer, hábito, conveniência, afeto, tradição e pertencimento.
Comemos em celebrações, em momentos de tristeza, durante encontros familiares e em situações marcadas pela pressa ou pela falta de tempo. Às vezes, comemos sem fome. Em outras circunstâncias, deixamos de comer apesar dela.
A alimentação, portanto, não se resume ao ato de ingerir alimentos. Isso é comer.
Ela compreende um conjunto de práticas e relações que envolve disponibilidade, escolha, obtenção, preparo e consumo dos alimentos, além dos hábitos e significados construídos ao redor deles.
Embora o organismo humano dependa da ingestão de alimentos para manter suas funções, a maneira como nos alimentamos não é determinada exclusivamente pela biologia.
Nossas escolhas também são influenciadas pela cultura, pela história pessoal, pelas condições econômicas, pelas relações sociais e pelo ambiente em que estamos inseridos.
É por isso que duas pessoas podem receber a mesma orientação e encontrar dificuldades completamente diferentes para colocá-la em prática.
O que parece simples para uma pode ser complexo para outra. O que funciona em determinada situação pode não funcionar da mesma forma em outra.
Ainda assim, a familiaridade com a alimentação pode produzir uma impressão enganosa: a de que, por ser uma experiência universal, sua compreensão também seria universal.
Todos sabemos, em alguma medida, como nos alimentamos.
Mas isso não significa que compreendamos os mecanismos fisiológicos envolvidos, saibamos interpretar evidências científicas ou estejamos preparados para avaliar as necessidades nutricionais de outra pessoa.
A experiência pessoal nos ensina sobre nós mesmos. Ela não constitui, por si só, uma explicação suficiente para a experiência de todos.
A alimentação virou novidade. A Nutrição, não.
Com a expansão das redes sociais, a alimentação ganhou novas formas de exposição e comercialização.
Dietas, suplementos, receitas, métodos e promessas de transformação circulam continuamente, muitas vezes apresentados como descobertas capazes de resolver questões complexas por meio de regras simples.
A comida deixou de ocupar apenas o espaço da mesa. Tornou-se também conteúdo, entretenimento, tendência e produto de consumo.
Somos constantemente convidados a experimentar novidades, excluir alimentos, seguir recomendações, adotar métodos e acreditar que existe uma resposta rápida para questões que envolvem saúde e comportamento humano.
Nesse cenário, a Nutrição pode ser percebida como se fosse um produto da atualidade, surgido junto com a popularização das redes sociais.
Mas o que é recente não é a existência da Nutrição como campo de conhecimento e profissão.
O que se transformou de maneira significativa foi a circulação de informações sobre alimentação e a capacidade de convertê-las em audiência, influência e mercadorias.
Essa mudança trouxe oportunidades importantes para a educação em saúde. Ao mesmo tempo, tornou mais difícil distinguir informação, opinião, publicidade e conhecimento profissional.
É mais fácil comunicar a proposta de passar 30 dias sem açúcar do que explicar os mecanismos fisiológicos envolvidos na regulação da glicose, as particularidades do metabolismo, o comportamento alimentar, a avaliação clínica e as diferenças entre indivíduos.
Uma regra simples cabe em uma publicação.
A complexidade de uma conduta nutricional exige contexto.
Promessas rápidas são atraentes porque oferecem respostas aparentemente claras. O conhecimento profissional, por sua vez, nem sempre produz conclusões tão imediatas.
Ele exige investigação, interpretação, avaliação e, muitas vezes, revisão das próprias hipóteses diante das particularidades de cada caso.
Além disso, os resultados do cuidado nutricional nem sempre são imediatamente visíveis.
Algumas mudanças aparecem nos exames. Outras se manifestam na relação com a comida, na capacidade de manter determinados hábitos, na prevenção de complicações ou na autonomia para tomar decisões.
Nem todas podem ser resumidas em uma fotografia, em um número na balança ou em uma promessa de transformação dentro de determinado prazo.
O problema começa quando a facilidade de comunicar uma informação passa a ser confundida com a profundidade do conhecimento que a sustenta.
Informação sobre alimentação não é sinônimo de conhecimento em Nutrição. Conhecer uma recomendação também não significa saber quando, por que e para quem ela é adequada.
Entre a experiência pessoal e o conhecimento profissional
Todos podemos compartilhar nossas preferências, contar nossas experiências e falar sobre as dificuldades que encontramos para nos alimentar.
Podemos dizer que determinado alimento nos agrada, que uma mudança de hábito nos ajudou ou que encontramos dificuldades para seguir uma orientação.
Esses relatos são legítimos e podem contribuir para a compreensão da alimentação.
O cuidado nutricional não deve ignorar a experiência de quem come, porque é nessa vida concreta que as orientações precisarão ser colocadas em prática.
A questão muda quando uma experiência individual passa a ser apresentada como regra universal.
Quando alguém conclui que, porque determinada conduta funcionou consigo, necessariamente funcionará para todos.
Ou quando uma opinião, uma observação isolada ou uma informação retirada de seu contexto é transformada em recomendação para outras pessoas.
A diferença entre essas situações não está em quem pode ou não falar sobre alimentação.
Está no alcance que atribuímos ao que dizemos e na responsabilidade envolvida ao orientar alguém.
Conhecer os próprios hábitos não equivale a dominar os conhecimentos necessários para avaliar as necessidades de outra pessoa.
Da mesma maneira, reconhecer que cada indivíduo tem uma história não significa abandonar os critérios científicos que orientam a prática profissional.
O conhecimento técnico não deve se impor à experiência humana como se ela fosse irrelevante. Tampouco a experiência pessoal deve substituir o conhecimento sistemático necessário à tomada de decisões profissionais.
É preciso reconhecer o valor de ambos sem confundi-los.
O nutricionista precisa conhecer os fundamentos científicos de sua profissão, interpretar evidências, realizar avaliações, desenvolver raciocínio clínico e compreender os diferentes fatores que interferem na alimentação.
Mas também precisa escutar, investigar e reconhecer que nenhuma pessoa pode ser inteiramente compreendida por meio de uma lista de alimentos, de um cálculo energético ou de um conjunto de orientações padronizadas.
A competência profissional não consiste apenas em saber o que recomendar. Envolve compreender por que determinada conduta faz sentido para aquela pessoa, em suas condições de vida e naquele momento.
Por que a Nutrição ainda precisa explicar o que faz?
Existe uma particularidade nas profissões relacionadas ao cuidado: seus objetos de trabalho frequentemente estão presentes na experiência cotidiana de todos nós.
Todos respiramos, mas isso não nos torna profissionais capazes de avaliar e tratar doenças respiratórias.
Todos nos movimentamos, mas isso não nos torna especialistas em biomecânica ou reabilitação.
Todos temos experiências com a alimentação, mas isso não nos torna igualmente preparados para exercer a Nutrição.
Ainda assim, a proximidade entre alimentação e vida cotidiana pode contribuir para que o conhecimento nutricional seja percebido como algo intuitivo, acessível a qualquer pessoa na mesma medida.
Como se preparar refeições, escolher alimentos ou acompanhar tendências fosse suficiente para compreender os processos que sustentam uma prática profissional.
A familiaridade com o objeto da Nutrição pode tornar menos visível a complexidade do trabalho realizado.
Quando uma atividade parece fazer parte da rotina de todos, sua dimensão técnica pode parecer dispensável.
O que se vê é o prato servido, não necessariamente o conhecimento mobilizado para compreender as necessidades de quem vai consumi-lo.
A Nutrição enfrenta ainda outro desafio: seu conhecimento é frequentemente confundido com informações isoladas sobre alimentos.
Mas saber que um alimento contém determinado nutriente é diferente de compreender sua função no organismo, avaliar sua relevância em um contexto clínico ou determinar como seu consumo se relaciona com as necessidades de uma pessoa.
Entre conhecer uma informação e dominar uma prática profissional existe um percurso que envolve formação, estudo, interpretação, experiência, responsabilidade e atualização.
Reconhecer essa diferença não significa reivindicar para o nutricionista o monopólio das conversas sobre comida.
Significa compreender que orientar a alimentação de outra pessoa exige competências que vão além da experiência individual e da simples circulação de informações.
Nutrir uma pessoa é mais complexo do que calcular nutrientes
Se o cuidado nutricional envolvesse apenas o organismo, a Nutrição poderia se limitar à aplicação da bioquímica: calcular energia, proteínas, aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas e minerais e relacionar essas quantidades às necessidades fisiológicas.
Mas seres humanos não são apenas organismos que recebem substratos para manter suas funções vitais.
Comemos aquilo que reconhecemos como comida.
Comemos dentro de relações, segundo costumes e símbolos.
Comemos por necessidade e por prazer.
A comida pode representar cuidado, pertencimento, celebração, memória, recompensa ou conforto. Pode aproximar pessoas, preservar tradições e expressar identidades.
Um alimento não deixa de ter propriedades bioquímicas porque está associado a uma lembrança afetiva. Da mesma forma, seu significado cultural não elimina seus efeitos fisiológicos.
Uma proteína é uma realidade bioquímica.
Um churrasco de domingo com a família também é uma realidade cultural, afetiva e social.
As duas dimensões coexistem no mesmo prato.
Compreender a alimentação de alguém exige, portanto, considerar tanto os processos do organismo quanto a pessoa que se alimenta, sua história, suas relações e as condições em que vive.
Isso não significa substituir a ciência por interpretações subjetivas.
Significa reconhecer que a ciência nutricional, quando aplicada ao cuidado humano, precisa dialogar com a complexidade da vida real.
Uma recomendação pode ser tecnicamente fundamentada e, ainda assim, mostrar-se inadequada se desconsiderar a realidade de quem a recebe.
Da mesma maneira, uma escolha que parece pouco favorável sob determinado aspecto nutricional pode ser mais bem compreendida quando observamos as circunstâncias em que ocorre, sem que isso impeça uma avaliação crítica de seus efeitos sobre a saúde.
O trabalho do nutricionista se desenvolve justamente nesse encontro entre conhecimento científico e experiência humana.
Não basta conhecer os alimentos isoladamente. É necessário compreender as relações entre alimento, organismo e pessoa.
O objeto da Nutrição não é simplesmente a comida.
É também a relação entre aquilo que comemos, o corpo que recebe esse alimento e a pessoa cuja vida se expressa nessa relação.
Afinal, alho, cebola e frango são a mesma coisa?
Voltemos à pergunta inicial.
Alho, cebola e frango são alimentos, mas não são iguais.
Compartilhar uma categoria não elimina diferenças de composição, características e usos.
Da mesma maneira, todos comemos e temos uma relação com a alimentação, mas isso não significa que compreendamos a Nutrição na mesma medida ou que estejamos preparados para orientar a alimentação de outras pessoas.
A comparação é simples, mas ajuda a perceber um equívoco mais amplo: tratar como equivalentes coisas que compartilham determinada característica, embora sejam diferentes em natureza, finalidade e complexidade.
A experiência de comer não é irrelevante. Pelo contrário: ela é indispensável para compreender como cada pessoa se relaciona com a comida.
O que precisamos evitar é transformar essa experiência em verdade universal ou confundir o compartilhamento de informações com o exercício de uma profissão.
Talvez a pergunta mais importante não seja quem pode falar sobre alimentação, mas com que fundamento falamos e até onde nossas afirmações podem ser consideradas válidas.
- Estou compartilhando uma experiência pessoal ou afirmando o que essa pessoa precisa fazer?
- Conheço suficientemente as circunstâncias envolvidas?
- Compreendo os limites da informação que estou transmitindo?
Essas perguntas não encerram a conversa sobre alimentação.
Ao contrário, podem torná-la mais responsável, cuidadosa e aberta ao conhecimento.
Comer é uma experiência universal. Compreender a Nutrição exige mais do que familiaridade com a comida. Exige ciência, formação, capacidade de avaliação e disposição para reconhecer a individualidade humana. Talvez esteja justamente aí o paradoxo da profissão: aquilo que torna a alimentação tão próxima de todos nós também torna seu estudo extraordinariamente complexo. Nutrir uma pessoa concreta não é apenas oferecer alimentos, calcular nutrientes ou transmitir recomendações. É compreender que, ao redor de cada prato, existem um organismo, uma história, uma cultura, determinadas condições de vida e alguém que precisa ser cuidado. Todos comemos. Mas compreender a Nutrição e cuidar da alimentação de outra pessoa são responsabilidades que não se confundem com o simples fato de comer.
A atuação de Fabiana Zanuzzo

Fabiana Zanuzzo
Nutricionista · CRN-8/4555 PR
Fabiana Zanuzzo é nutricionista desde 2006, pós-graduada em Nutrição Clínica na área de Terapia Nutricional Aplicada e Educadora em Diabetes. Sua atuação reúne conhecimento científico, experiência clínica, escuta e educação em saúde para construir condutas individualizadas, considerando a história, a rotina e as necessidades de cada pessoa.
Atende adultos presencialmente em Toledo-PR e online, com foco em obesidade e saúde metabólica, diabetes tipo 2 e longevidade. Também atua com Educação em Diabetes e, no cuidado nutricional relacionado ao lipedema, integra a proposta multidisciplinar do Lipera.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação individualizada, diagnóstico médico ou orientação da equipe responsável pelo seu tratamento.
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